Do cavaquinho de duas cordas ao Espaço Favela: Hitmaker estreia no Rock in Rio por Dona Nice
Com a contagem regressiva rolando, cresce a ansiedade de quem vai estrear no Rock in Rio. É o caso de Hitmaker, um dos grandes nomes do funk e do pop do país. Nascido no Morro do Dezoito, na Zona Norte carioca, o produtor abre o evento como o segundo a subir ao Espaço Favela, em 4 de setembro.
“O Rock in Rio representa muita coisa na minha história. Como compositor, produtor, fã. Sempre quis ter uma música que tocasse no festival”, diz ele. O primeiro elo com o palco veio de uma composição sua, “Favela Chegou”, que o público cantava nos shows de Anitta e Ludmilla. “Foi a realização de um sonho para um cara que foi criado no Morro do Dezoito.”
Sua primeira visita à Cidade do Rock aconteceu em 2024, quando Akon o chamou para um remix no Palco Mundo. O convite nasceu de um pedido de Maitê, filha do artista, de 9 anos. “Tudo começou por causa de um remix que fiz para ela. Toda vez que a levo e busco na escola, coloco alguma música que ela goste, mas na minha versão. Na época, ela escolheu ‘Lonely’, do Akon”, conta. Agora, com show próprio, terá a filha na plateia. “A voz do ‘Hi-t-ma-ker’, presente em todas as minhas músicas, é dela. Minha filha vai poder entender que nunca deve desistir dos sonhos.”
Uma promessa feita a Dona Nice
O sucesso, porém, veio depois de uma infância dura. Hitmaker foi criado pela avó, Dona Nice, fã de carteirinha do Só Pra Contrariar. “Durante a minha vida, as coisas não foram fáceis, porque eu não tinha uma condição financeira boa. Mas a música sempre esteve presente, e tudo começou pela minha avó”, relembra. Aos 12 anos, ele viu a avó adoecer e sentiu que precisava reagir.
Sem televisão em casa, pediu emprestado o cavaquinho de um vizinho, que tinha só duas cordas e um papelão colado atrás, para distrair a matriarca. “Me sentei na cama dela, toquei e cantei, e ela dormiu. No dia seguinte, me disse: vai não me botar para dormir de novo?” Foi então que descobriu, na ficha técnica de um CD, as funções de compositor, produtor e arranjador. “Pensei: preciso ser igual ao Alexandre Pires. E disse: vó, vou consertar esse cavaco, aprender a cantar, conhecer o Alexandre Pires e tocar na rádio. Tudo pela senhora.”
Para bancar o sonho, abriu mão de coisas básicas. “Eu tinha R$ 2 por dia para ir e voltar da escola de ônibus, mas ia a pé. Também deixava de comer, o que dava mais uns R$ 2 para comprar revistinha de cifra e arrumar o cavaquinho. Eu era conhecido como o menino do cavaquinho.” Meses depois, no dia em que finalmente mostraria a canção preferida da avó, veio a perda: ela faleceu.
“Eu falo que o menino Wallace faleceu junto naquele dia. Dali em diante, não soube o que é jogar bola, soltar pipa, nada. Só faço música”, resume o artista, hoje com parcerias ao lado de Ana Castela, Tati Quebra Barraco e outros nomes. Para ele, pisar no Espaço Favela vai além de uma conquista pessoal. “É a representatividade de muitos outros sonhos periféricos estarem ali naquele palco.”

