{"id":1953,"date":"2025-09-02T14:37:54","date_gmt":"2025-09-02T17:37:54","guid":{"rendered":"https:\/\/funfans.com.br\/?post_type=tribe_events&#038;p=1953"},"modified":"2025-09-02T14:37:54","modified_gmt":"2025-09-02T17:37:54","slug":"maria-bethania-60-anos-de-carreira","status":"publish","type":"tribe_events","link":"https:\/\/funfans.com.br\/index.php\/evento\/maria-bethania-60-anos-de-carreira\/","title":{"rendered":"MARIA BETH\u00c2NIA &#8211; 60 ANOS DE CARREIRA"},"content":{"rendered":"<p>Maria Beth\u00e2nia completa 60 anos de carreira e anuncia apresenta\u00e7\u00f5es comemorativas. Apresentados por Elo, os shows estreiam no Rio de Janeiro, nos dias 06, 07, 13, 14, 20 e 21 de setembro, no Vivo Rio.<\/p>\n<p>SEIS D\u00c9CADAS DA VOZ DE UM PA\u00cdS \u2013 por Leonardo Lichote<\/p>\n<p>Maria Beth\u00e2nia celebra 60 anos de carreira em show que trar\u00e1 in\u00e9ditas em meio a cl\u00e1ssicos \u2014 e cujas principais refer\u00eancias s\u00e3o espet\u00e1culos como \u2018Rosa dos ventos\u2019 (1971) e \u2018A cena muda\u2019 (1974)<\/p>\n<p>Maria Beth\u00e2nia lembra \u2014 \u201cperfeitamente\u201d, como me contou em entrevista em 2021 \u2014 de sua estreia no espet\u00e1culo \u201cOpini\u00e3o\u201d, em fevereiro de 1965. A amiga Thereza Arag\u00e3o a recebendo e a encaminhando para o camarim modesto do Teatro Opini\u00e3o, de luz \u00e2mbar, com um espelho quadrado na parede. Sua calma contrastando com o nervosismo de seu irm\u00e3o Caetano Veloso. Sua insatisfa\u00e7\u00e3o com o penteado que lhe fizeram \u2014 e a afirma\u00e7\u00e3o da personalidade forte se mostrando j\u00e1 ali, quando ela decidiu, minutos antes de entrar no palco, prender o cabelo no coque que virou uma marca sua naquele primeiro momento da carreira. A felicidade com que entrou no palco, descal\u00e7a, para cantar \u201c\u00c9 de manh\u00e3\u201d. A aclama\u00e7\u00e3o de \u201cCarcar\u00e1\u201d naquele Brasil que h\u00e1 quase um ano vivia uma ditadura militar.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que Beth\u00e2nia se apresentava num palco fora da Bahia, onde j\u00e1 come\u00e7ava a se mostrar como cantora em shows coletivos que reuniam jovens artistas locais como Caetano, Gil, Gal e Tom Z\u00e9. Em passagem por Salvador, Nara Le\u00e3o a ouviu cantar e, pouco tempo depois, a indicou para substitu\u00ed-la no \u201cOpini\u00e3o\u201d, abrindo espa\u00e7o para a estreia nacional da baiana.<\/p>\n<p>Agora, seis d\u00e9cadas depois, a cantora prepara um show em celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 caminhada iniciada ali, naquele pequeno teatro de Copacabana. Uma trajet\u00f3ria que cravou seu lugar na hist\u00f3ria da m\u00fasica de nosso pa\u00eds \u2014 e, ainda mais importante, no cora\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de brasileiros que foram tocados pelo calor cortante de sua voz, que conjuga aspereza e do\u00e7ura, dengo e contund\u00eancia, drama e mel, mares e o\u00e1sis. Como afirmou em 1972, nos versos de Chico Buarque que tomou para si como faz com tudo que seu canto toca:<\/p>\n<p>Quando eu canto, que se cuide quem n\u00e3o for meu irm\u00e3o. O meu canto, punhalada, n\u00e3o conhece o perd\u00e3o;Quando eu rio, rio seco como \u00e9 seco o sert\u00e3o. Meu sorriso \u00e9 uma fenda escavada no ch\u00e3o; Quando eu choro \u00e9 uma enchente surpreendendo o ver\u00e3o. \u00c9 o inverno, de repente, inundando o sert\u00e3o; Quando eu amo, eu devoro todo meu cora\u00e7\u00e3o. Eu odeio, eu adoro, numa mesma ora\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>A marca de sua intensidade \u2014 tornada meme pela frase \u201cToca Maria Beth\u00e2nia pra ela, mostra que tu \u00e9 intenso\u201d, dita por S\u00f4nia Braga no filme \u201cAquarius\u201d \u2014 se mostrava j\u00e1 nos primeiros passos da carreira. Quando boa parte dos artistas de sua gera\u00e7\u00e3o pr\u00f3ximos a ela estava em di\u00e1logo direto com a bossa nova, fosse reafirmando a gram\u00e1tica de contida sofistica\u00e7\u00e3o musical do g\u00eanero, fosse buscando dar um passo seguinte como a turma da Tropic\u00e1lia, Beth\u00e2nia foi na dire\u00e7\u00e3o das cores fortes e amores derramados do samba-can\u00e7\u00e3o \u2014 e de outras p\u00e9rolas antigas pouco lembradas ent\u00e3o. Marcava assim sua identidade \u00fanica \u2014 assim como afirmava dist\u00e2ncia da combatividade politizada e sertaneja de \u201cCarcar\u00e1\u201d, lugar na qual p\u00fablico e cr\u00edtica tentaram congel\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u201cVoltei cantora da noite, meio cafona, com m\u00fasica que ningu\u00e9m cantava, de um repert\u00f3rio rom\u00e2ntico mais brega, de que eu sempre gostei\u201d, lembrou em entrevista a mim em 2015. \u201cN\u00e3o era nem Tropic\u00e1lia nem bossa nova. Ambos lind\u00edssimos, e eu passeei bem nos dois. Mas do meu jeitinho, sem me aprisionar\u201d. Esse momento inicial aparece bem representado no \u00e1lbum \u201cRecital na Boite Barroco\u201d, de 1968.<\/p>\n<p>A religiosidade \u2014 outra marca da m\u00fasica de Beth\u00e2nia, filha de Oy\u00e1, iniciada por M\u00e3e Menininha do Gantois \u2014 come\u00e7a a se mostrar de maneira definida a partir de 1969, quando ela grava \u201cPonto do guerreiro branco\u201d. Ela seguiria gravando nos anos seguintes pontos tradicionais e can\u00e7\u00f5es de inspira\u00e7\u00e3o religiosa, como \u201cAs ayabas\u201d e \u201cIans\u00e3\u201d, ambas parcerias de Caetano e Gil. Em \u201cO\u00e1sis de Beth\u00e2nia\u201d, disco de 2012, ela apresentou \u201cCarta de amor\u201d, na qual, em raros versos pr\u00f3prios (entremeados com refr\u00e3os de Paulo C\u00e9sar Pinheiro), ela lista de maneira desafiadora as entidades que a acompanham: santos, orix\u00e1s, esp\u00edritos ind\u00edgenas, diferentes materializa\u00e7\u00f5es das ancestralidades do Brasil.<\/p>\n<p>Sobretudo por sua for\u00e7a no palco, Beth\u00e2nia se tornou, ela pr\u00f3pria, uma dessas presen\u00e7as m\u00edticas que definem o esp\u00edrito do Brasil. Evidente desde aquela primeira apari\u00e7\u00e3o no Teatro Opini\u00e3o, sua pot\u00eancia em cena s\u00f3 se consolidou com o tempo. Em especial, a partir dos espet\u00e1culos realizados em parceria com o diretor Fauzi Arap, com quem ela desenvolveu uma linguagem que se tornou a partir dali uma assinatura, um jeito Beth\u00e2nia de estar no tablado: roteiro cruzando textos e can\u00e7\u00f5es, dando um senso teatral que explora ao m\u00e1ximo a dramaticidade da cantora.<\/p>\n<p>O primeiro show que Beth\u00e2nia e Fauzi fizeram juntos foi \u201cComigo me desavim\u201d, de 1967 \u2014 apontado pela cr\u00edtica como um dos melhores espet\u00e1culos do ano. Mas a linguagem da dupla se consolida na d\u00e9cada de 1970, em shows como \u201cRosa dos ventos\u201d (1971), \u201cA cena muda\u201d (1974) e \u201cP\u00e1ssaro da manh\u00e3\u201d (1977). Depois, a parceria seguiu dando frutos: \u201cMaria\u201d (1988), \u201c\u00c2mbar\u201d (1996), \u201cMaricotinha\u201d (2001), entre outros.<\/p>\n<p>No show comemorativo dos 60 anos de carreira, a cantora ir\u00e1 explorar exatamente a interse\u00e7\u00e3o entre a linguagem musical e a dramaturgia, ou seja, entre textos e can\u00e7\u00f5es \u2014 incluindo in\u00e9ditas que ainda ser\u00e3o reveladas. As refer\u00eancias para o novo espet\u00e1culo s\u00e3o \u201cRosa dos ventos\u201d e \u201cA cena muda\u201d, ambos desse per\u00edodo dos anos 1970. Ou seja, a Beth\u00e2nia mais profundamente Beth\u00e2nia.<\/p>\n<p>Gal e Beth\u00e2nia estiveram juntas dois anos antes, ao lado ainda de Caetano e Gil, no supergrupo Doces B\u00e1rbaros. O quarteto se reuniu para uma turn\u00ea registrada num \u00e1lbum duplo e num document\u00e1rio de Jom Tob Azulay. \u00c9 desse encontro sua primeira grava\u00e7\u00e3o de \u201cUm \u00edndio\u201d, que Caetano fez para que ela cantasse. Outros encontros da \u00e9poca que entraram para a hist\u00f3ria \u2014 em shows e discos \u2014 foram \u201cChico Buarque &amp; Maria Beth\u00e2nia\u201d, em 1975, e \u201cMaria Beth\u00e2nia e Caetano Veloso\u201d, em 1978.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes, Beth\u00e2nia seguiu lan\u00e7ando discos marcantes de sua carreira. \u201cMel\u201d, de 1979, trazia cl\u00e1ssicos como a can\u00e7\u00e3o-t\u00edtulo (de Waly Salom\u00e3o e Caetano), \u201cCheiro de amor\u201d (Paulo S\u00e9rgio<\/p>\n<p>Valle, Jota Morais, Ribeiro e Duda Mendon\u00e7a) e \u201cDa cor brasileira\u201d (Ana Terra e Joyce Moreno). \u201cDezembros\u201d, de 1986, tem sucessos como \u201cAnos dourados\u201d (Tom Jobim e Chico Buarque) e \u201cGostoso demais\u201d (Dominguinhos e Nando Cordel). Em \u201cMem\u00f3ria da pele\u201d, de 1989, al\u00e9m da m\u00fasica que d\u00e1 nome ao disco (parceria de Jo\u00e3o Bosco e Waly Salom\u00e3o), est\u00e1 \u201cReconvexo\u201d, outra que seu irm\u00e3o comp\u00f4s pra ela e se tornou uma de suas assinaturas.<\/p>\n<p>A partir de \u201cOlho d\u2019\u00e1gua\u201d (1992) e, mais marcadamente, de \u201cA for\u00e7a que nunca seca\u201d (1999), Beth\u00e2nia se lan\u00e7a num mapeamento afetivo do Brasil interiorano, que se tornou um pilar de sua obra desde ent\u00e3o \u2014 com tradu\u00e7\u00e3o sonora quase sempre do maestro Jaime Alem, seu parceiro musical por quase 30 anos, at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 2010. O exemplo mais bem acabado dessa proposta se d\u00e1 em \u201cBrasileirinho\u201d, disco antol\u00f3gico que gerou um espet\u00e1culo igualmente hist\u00f3rico. Ali, e em praticamente todos os seus \u00e1lbuns desde ent\u00e3o, a cantora desenha um pa\u00eds que captura com seu olhar e que se materializa em seu canto. Um sonho real de Brasil, fincado no ch\u00e3o de terra, e que se afirma mesmo em meio \u00e0s trevas, como em \u201cNoturno\u201d, disco de 2021.<\/p>\n<p>Esse pa\u00eds se insinua mesmo em projetos de conceitos bem definidos, como \u201cPirata\u201d e \u201cMar de Sofia\u201d \u2014 discos irm\u00e3os de 2006 dedicados \u00e0s \u00e1guas. Ou \u201cQue falta voc\u00ea me faz\u201d, de 2007, uma declara\u00e7\u00e3o de amor a Vinicius de Moraes. Ou ainda no projeto em dupla com Zeca Pagodinho (\u201cDe Santo Amaro a Xer\u00e9m\u201d, de 2018). A Mangueira \u2014 onde o Rio \u00e9 mais baiano e onde Beth\u00e2nia se sagrou campe\u00e3 do carnaval em 2016 como homenageada do enredo \u201cA menina dos olhos de Oy\u00e1\u201d \u2014 encarna esse Brasil de maneira n\u00edtida em \u201cMangueira \u2014 a menina dos meus olhos\u201d, disco de 2019.<\/p>\n<p>Celebrada no carnaval da verde-e-rosa, em document\u00e1rios como \u201cM\u00fasica \u00e9 perfume\u201d (Georges Gachot em 2005) e \u201cFevereiros\u201d (Marcio Debellian, 2017) e pelos milh\u00f5es de f\u00e3s que foram as arenas assistir \u00e0 rec\u00e9m-encerrada turn\u00ea que ela fez ao lado de Caetano, Beth\u00e2nia seguir\u00e1 tra\u00e7ando, no novo show, as linhas desse Brasil que a alimenta e que ela alimenta. Afinal, carrega com ela, como certeza, um verso da primeira can\u00e7\u00e3o que entoou no espet\u00e1culo \u201cOpini\u00e3o\u201d, h\u00e1 60 anos: \u201cA barra do dia vem\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Beth\u00e2nia completa 60 anos de carreira e anuncia apresenta\u00e7\u00f5es comemorativas. 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